Atletas Brasileiros e a Redescoberta da Cannabis Medicinal
Enquanto nomes como Anitta impulsionam o debate sobre cannabis nas redes sociais, atletas brasileiros trazem experiências concretas com o uso medicinal da planta, revelando um caminho de escuta ao corpo, ciência e bem-estar.
A dor que não aparece no pódio
A imagem do atleta costuma ser associada a vigor, energia e superação. Mas por trás de cada performance há também câimbras, lesões, inflamações crônicas e, muitas vezes, sofrimento psíquico. É nesse cenário que a cannabis medicinal vem surgindo como uma alternativa possível — e legal — para o cuidado com o corpo e a mente.
Atletas como Fernando Paternostro, triatleta e criador do app MyGrazz, passaram a usar compostos à base de canabidiol (CBD) sob orientação médica para lidar com dores pós-prova e recuperar o sono.
“Hoje eu consigo completar um Ironman sem sentir o peso no joelho que me acompanhava há anos”, declarou em entrevista ao O Globo.
Já o maratonista olímpico Daniel Chaves, um dos principais nomes do atletismo brasileiro, afirmou publicamente que a cannabis medicinal foi fundamental para superar um quadro de depressão. Assim como ele, o remador Tomás Levy, campeão brasileiro, utiliza os fitocanabinoides para controlar sintomas da síndrome de Tourette, condição que provoca tiques motores e vocais involuntários.
O que diz a ciência esportiva
Estudos recentes vêm reforçando o potencial terapêutico da cannabis no universo esportivo. Pesquisas internacionais apontam que o CBD pode ajudar na redução da inflamação muscular, na melhora da qualidade do sono e na recuperação pós-treino. Aqui no Brasil, o uso medicinal é permitido sob prescrição, com registro na Anvisa para importação ou aquisição via associações autorizadas.
Desde 2018, o Comitê Olímpico Internacional e a Agência Mundial Antidoping (WADA) retiraram o CBD da lista de substâncias proibidas. No entanto, o THC — composto psicoativo da planta — ainda é restrito em competições, exigindo atenção especial dos atletas e das equipes médicas.
O médico do esporte e neurologista Rafael Meira afirma que “o CBD pode ser comparado, em alguns casos, ao corticoide do século 21 — com muito menos efeitos colaterais”. Segundo ele, “o uso racional, bem acompanhado e baseado em evidências já é uma realidade em consultórios e nos bastidores do esporte de alto rendimento”.
Projetos que educam, acolhem e transformam
O avanço do uso medicinal da cannabis no esporte não depende só da ciência ou da legislação — mas também da educação e da escuta. Iniciativas como o projeto TerrAtletas, que acompanha taekwondistas como Vitor Mendonça e Paulo Lacheski, mostram que, com o devido acompanhamento, é possível melhorar concentração, foco e recuperação muscular.
“Antes eu precisava de anti-inflamatórios pesados. Hoje, com o acompanhamento certo, consigo me recuperar melhor e dormir profundamente”, conta Vitor, que treina em regime de alto rendimento e participa de campeonatos nacionais.
O projeto Atleta Cannabis, fundado por Paternostro, também tem ampliado o debate, criando conteúdo educativo, facilitando acesso a médicos prescritores e promovendo encontros entre atletas e profissionais da saúde.
O que aprendemos com o corpo
A escuta do próprio corpo é uma das formas mais silenciosas — e poderosas — de resistência. Os atletas que buscam na cannabis medicinal uma alternativa ao uso recorrente de analgésicos e corticoides não estão apenas tentando competir melhor: estão buscando viver com mais dignidade, menos dor e mais presença.
E quando vozes públicas, como a da cantora Anitta, colocam o tema em evidência, o diálogo se amplia. Mas o que legitima de fato essa conversa é o cotidiano: as dores que não aparecem nas transmissões ao vivo, as noites mal dormidas, o esforço contínuo para equilibrar saúde e desempenho.
A Associação BrisaLuz de Famílias Atípicas acredita que cada história de alívio é uma história de esperança. E que a cannabis medicinal, usada com responsabilidade e orientação, pode ser uma ponte entre o corpo que sofre e a vida que quer florescer.
Serviço – Fontes consultadas nesta matéria
- Fernando Paternostro – Triatleta e fundador do app MyGrazz (O Globo)
- Daniel Chaves – Maratonista olímpico brasileiro
- Tomás Levy – Campeão de remo e paciente com síndrome de Tourette
- Projeto TerrAtletas – Iniciativa esportiva com uso medicinal supervisionado (Sechat)
- WADA / Agência Mundial Antidoping – Lista oficial de substâncias
- Dr. Rafael Meira – Neurologista e médico do esporte
- Comunicados públicos de Anitta – Terra, Correio Braziliense
- Anvisa – Resolução RDC n° 327/2019 sobre produtos à base de cannabis
- BrisaLuz – Associação de Famílias Atípicas com foco em produção artesanal de extratos sob prescrição médica
