O que toda mãe atípica deveria saber mas ninguém explica

No vácuo deixado pelo Estado, mães de crianças com autismo e outras condições neurológicas são forçadas a decifrar sozinhas o que é o óleo de cannabis medicinal, como usá-lo com segurança e o que está por trás da falta de informação oficial.
Nas últimas décadas, a cannabis medicinal deixou de ser tabu em países como Israel, Colômbia e Alemanha — e passou a fazer parte de protocolos de saúde pública. No Brasil, o avanço caminha lentamente, e o silêncio institucional ainda recai sobre quem mais precisa de respostas: as mães. São elas, quase sempre sozinhas, que enfrentam o preconceito e a desinformação para tentar garantir algum alívio para os filhos. Mas o que, afinal, elas deveriam saber — e por que quase ninguém explica?
Quem cuida das cuidadoras?
Quando uma mãe ouve pela primeira vez sobre o uso medicinal da cannabis, é raro que a informação venha de um médico do SUS. Em geral, vem por outras mães. Grupos de WhatsApp, fóruns informais, vídeos no YouTube, perfis de Instagram. A informação chega em pedaços, atravessada por medos, esperanças e promessas.
“Descobri o óleo por uma amiga de outra cidade. Meu pediatra não sabia nada e ainda fez piada. Passei dois meses pesquisando sozinha. Não sabia se era legal, se podia dar, se ia ser presa”, conta Cíntia, mãe de um menino autista de 7 anos, do interior do Paraná.
Casos como o de Cíntia não são exceção — são a regra. A ausência de uma política pública de orientação e acolhimento deixa mães atípicas expostas a riscos, desinformação e abordagens comerciais agressivas.
Afinal, o que é o óleo de cannabis medicinal?
De forma objetiva: trata-se de um extrato das flores da planta Cannabis sativa, diluído em um óleo carreador, geralmente azeite de oliva. O óleo pode conter canabinoides como o CBD (canabidiol), o THC (tetrahidrocanabinol) e outros compostos naturais que interagem com o sistema endocanabinoide do corpo humano — responsável por regular processos como sono, apetite, humor, dor e comportamento.
O uso medicinal da cannabis é reconhecido pela Anvisa, e permitido mediante prescrição médica. A RDC 327/2019 regula a venda em farmácias, mas os produtos são caros e muitas vezes pouco acessíveis. Outra alternativa é a importação individual autorizada pela Anvisa ou o acesso via associações de pacientes, como a BrisaLuz.
Entre a legalidade e o medo
Apesar de legalizado, o uso da cannabis medicinal ainda é envolto em insegurança e receio. “Muitas mães têm medo de serem vistas como usuárias de droga ou de serem criminalizadas ao falar sobre o tratamento dos filhos com cannabis”, explica Marina Barbosa, pesquisadora da FGV Direito SP. “O problema não é a lei — é a omissão do Estado em informar, acolher e proteger essas famílias.”
Essa omissão tem efeitos reais. Uma pesquisa conduzida pela Fiocruz em 2022 revelou que 78% das mães de crianças com TEA que usam óleo de cannabis descobriram o tratamento por conta própria, sem apoio do sistema de saúde.
Brasil atrasado, mães sobrecarregadas
Enquanto o Brasil judicializa mães e associações, países como Colômbia, Chile, Israel e Canadá já incorporaram o uso medicinal da cannabis em políticas públicas. No Uruguai, o plantio caseiro regulado é legal desde 2013. No Brasil, a ausência de políticas públicas transfere a responsabilidade para famílias que, em muitos casos, já estão sobrecarregadas emocional, financeira e fisicamente.
“Se meu filho tivesse nascido em Bogotá, eu não estaria brigando para ter acesso a um frasco de óleo. Estaria brigando por inclusão, por escola. Mas aqui, a gente ainda está no começo”, resume Patrícia, mãe de um adolescente com epilepsia refratária.
O que uma mãe deveria saber — mas quase ninguém diz
- O uso medicinal da cannabis é legal no Brasil, mas depende de prescrição médica.
- Nem todo óleo é igual. Produtos industrializados podem não ter o efeito comitiva — a interação natural entre os compostos da planta — e isso impacta o resultado terapêutico.
- Existem caminhos seguros de acesso, como farmácias, importação autorizada e associações sem fins lucrativos.
- É preciso acompanhamento médico, especialmente em crianças. O óleo não substitui outros cuidados.
- Você não está sozinha. Há uma rede de mães, médicos e associações que podem orientar com responsabilidade.
BrisaLuz: acolhimento e informação
A BrisaLuz é uma associação de famílias atípicas que atua com base no acolhimento, na transparência e na produção artesanal segura de óleo de cannabis, sempre sob prescrição médica. Além de oferecer acesso ao tratamento, a associação busca construir pontes: entre a ciência e a experiência, entre o direito e a vida real, entre mães isoladas e uma rede de apoio.
Fontes e Referências
- Anvisa – Resolução RDC 327/2019
- Cartilha DPU sobre cannabis medicinal, 2023
- Pesquisa Fiocruz 2022: “Percepções de mães de crianças com TEA sobre o uso de cannabis”
- Entrevistas com familiares e profissionais de saúde (2024)
- FGV Direito SP – Núcleo de Justiça e Constituição
*Nomes alterados para preservar a identidade das entrevistadas.