A Volta da Criança Má?

Violência Infantil, Internet e os Limites da Inocência

Uma tragédia que abala certezas

Na madrugada de 21 de junho de 2025, um adolescente de 14 anos matou os pais e o irmão de 3 anos enquanto todos dormiam, em Comendador Venâncio, distrito de Itaperuna (RJ). Usando uma arma do pai, ele executou os familiares friamente e escondeu os corpos na cisterna. Depois, ligou para os avós, fingindo um desaparecimento.

O motivo? A frustração por não poder visitar uma namorada virtual, de 15 anos, moradora de outro estado — um relacionamento que, segundo a polícia, começou quando ele tinha apenas 8 anos.

Em depoimento, o jovem foi direto: “Faria de novo.”

A criança má: entre o mito e a realidade

A brutalidade do crime ecoa uma imagem arquetípica e desconcertante: a da criança má. Embora a modernidade tenha consolidado a ideia da infância como sinônimo de inocência, nem sempre foi assim.

Nos séculos XVII e XVIII, influenciados por doutrinas religiosas e por pensadores como Hobbes, acreditava-se que a criança nascera inclinada ao pecado e à violência — um ser a ser domado. A pedagogia puritana via o castigo como ferramenta de salvação.

A “criança má” era a encarnação do desvio moral. Mais que uma fantasia, era uma figura construída culturalmente — e mobilizada sempre que a sociedade se depara com atos que desafiam sua visão idealizada da infância.

Casos que o mundo não esquece

O caso fluminense não é o único, nem o mais precoce. A história recente traz episódios igualmente impactantes:

  • Mary Bell, 11 anos (Inglaterra, 1968): estrangulou duas crianças pequenas com requintes de frieza.
  • James Bulger, 2 anos (Inglaterra, 1993): assassinado por dois meninos de 10 anos, em um dos crimes mais chocantes do século.
  • Jasmine Richardson, 12 anos (Canadá, 2006): matou os pais e a irmã com ajuda do namorado adulto.

Em todos os casos, havia elementos comuns: ausência de remorso, motivação íntima ou emocional e despreparo dos adultos ao redor.

A infância na era da internet

A história do menino de Itaperuna expõe outro ponto crítico: a criação de vínculos intensos e secretos no mundo digital.
Seu relacionamento com a adolescente mato-grossense começou por meio de um jogo online e evoluiu sem mediação adulta.
Ele planejava fugir, falsificar documentos e até sacar o FGTS do pai morto — segundo a polícia, tudo previamente pesquisado na internet.

O ambiente virtual, sem supervisão, tornou-se espaço de absolutização afetiva e terreno fértil para decisões irreversíveis.

Quando o problema é clínico: o que dizem os especialistas?

Em muitos casos, comportamentos extremos têm base em transtornos de conduta não diagnosticados. Entre os mais observados:

Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)

Irritabilidade intensa, desafio à autoridade, comportamento provocador.

Transtorno de Conduta (TC)

Agressividade deliberada, crueldade com animais, mentiras frequentes e violação grave de regras.

Transtorno Explosivo Intermitente

Ataques de raiva súbitos, desproporcionais, e sem remorso posterior.

Esses quadros afetam entre 3% a 6% das crianças e requerem diagnóstico clínico criterioso. “Não se trata de justificar um crime, mas de entender o que se desenhava antes que ele explodisse”, aponta a psicóloga Luciana Mendes, especializada em psicopatologia infantojuvenil.

O que diz a lei?

No Brasil, adolescentes de até 18 anos são julgados com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O autor do triplo homicídio está internado provisoriamente no Degase (RJ) e pode cumprir até 3 anos de medida socioeducativa, prorrogável em casos excepcionais.

O caso reacende debates: menores devem ser responsabilizados como adultos em crimes graves? Ou é a ausência de estrutura familiar, atendimento psiquiátrico e supervisão que deveria estar no banco dos réus?

Um espelho, não um monstro

Casos como esse nos paralisam porque desmontam a narrativa do “inocente por natureza”. Mas, talvez, não seja o mal em si que nos espante — e sim o quanto nosso modelo de infância falha ao lidar com sofrimento, isolamento e impulsividade.

A “criança má” pode ser um mito. Mas os sinais ignorados, os afetos ausentes e os mundos digitais incontroláveis são bem reais.

Nota da Redação

A BrisaLuz trabalha com famílias atípicas, acolhendo histórias de superação, dor e transformação. Casos como esse nos desafiam a refletir mais fundo sobre como cuidamos — e deixamos de cuidar — das nossas crianças.

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