Entre benefícios terapêuticos e riscos silenciosos, como os games impactam a vida de pessoas autistas
No silêncio de muitos lares, os sons de fases vencidas, mundos construídos ou criaturas capturadas se tornaram parte da rotina de famílias com crianças autistas. Para uns, os jogos digitais representam uma fuga. Para outros, um ponto de foco e conexão. Mas entre o encantamento e os alertas, é possível cultivar um uso equilibrado das telas, respeitando o tempo, o corpo e a sensibilidade de cada pessoa?
Nesta matéria, reunimos reflexões sobre os usos positivos dos games no universo do Transtorno do Espectro Autista (TEA), com base em declarações públicas, experiências compartilhadas por famílias nas redes sociais e alertas de especialistas sobre os efeitos do uso excessivo de telas.
Por que os games atraem tanto pessoas autistas
O universo dos jogos oferece, muitas vezes, aquilo que o mundo real não entrega: previsibilidade, lógica, estrutura e controle. Esses aspectos são altamente valorizados por muitas pessoas no espectro, sobretudo aquelas com hipersensibilidades sensoriais ou dificuldades de interação social espontânea.
A cientista Temple Grandin, uma das vozes autistas mais conhecidas no mundo, afirmou em diversas entrevistas que ambientes previsíveis são fundamentais para o bem-estar emocional de pessoas autistas. Nos jogos, o jogador sabe o que esperar, pode repetir tarefas, controlar o tempo e evitar interações indesejadas. Isso proporciona segurança.
Relatos frequentes em redes sociais como X (antigo Twitter) e em grupos de famílias no Facebook destacam a importância de jogos como Minecraft, Animal Crossing e Mario Kart na rotina de crianças autistas. Alguns pais relatam que seus filhos passaram a desenvolver mais foco, interesse em regras sociais e até avanços na linguagem a partir dessas experiências.
Os riscos pouco falados: excesso de tela, regressão e isolamento
Apesar dos potenciais benefícios, o uso excessivo de telas pode trazer prejuízos importantes. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que crianças maiores de dois anos tenham, no máximo, duas horas diárias de exposição a telas, sempre com supervisão adulta. Para crianças menores, a recomendação é evitar completamente.
Entre os riscos documentados estão a intensificação de comportamentos repetitivos sem contexto, prejuízo no desenvolvimento da linguagem e habilidades sociais, alterações no sono, crises sensoriais e quadros de dependência emocional ou irritabilidade quando há interrupções.
A neuropediatra Ana Escobar, em entrevista à Revista Crescer, alertou:
“O uso exagerado de telas, mesmo em conteúdos educativos, pode agravar quadros clínicos já presentes em crianças com autismo.”
Na prática, muitos pais relatam episódios de regressão, irritação extrema e isolamento quando o uso dos jogos não é mediado, ou quando há exposição a jogos com alto nível de estímulo visual e auditivo.
Quando o jogo vira ferramenta de desenvolvimento
Por outro lado, quando usado com mediação e objetivos definidos, o universo gamer pode se tornar uma ferramenta poderosa de desenvolvimento. Em diversas experiências documentadas por terapeutas ocupacionais e psicopedagogos, jogos como Minecraft têm sido usados para estimular cooperação, planejamento, identificação de emoções e até habilidades narrativas.
A plataforma Tismoo.me, por exemplo, desenvolveu um ambiente gamificado para apoiar crianças autistas em aspectos cognitivos e sociais. Em postagens públicas, adultos autistas relatam que, em ambientes como Animal Crossing ou Stardew Valley, conseguiram relaxar pela primeira vez, entendendo ritmos, tempo e rotinas.
Esses jogos permitem experimentar consequências de ações, trabalhar com regras sociais e lidar com frustrações de forma segura. Com mediação, isso pode gerar aprendizados que se transferem para a vida cotidiana.
Caminhos para o equilíbrio
Para que o uso dos games seja positivo e saudável, é fundamental estabelecer alguns critérios:
- Definir horários fixos para o uso de telas.
- Incentivar o uso dos jogos como parte de uma rotina mais ampla, incluindo atividades ao ar livre, tarefas domésticas, momentos de leitura e descanso.
- Jogar junto, sempre que possível, para transformar o jogo em uma oportunidade de vínculo.
- Observar os sinais de sobrecarga sensorial e oferecer pausas.
- Alternar jogos digitais com jogos físicos, como tabuleiros, cartas e atividades de construção.
O mais importante é compreender que o jogo pode ser uma ponte — ou um muro — entre o autista e o mundo. Tudo depende de como é usado.
A BrisaLuz AFA
Valoriza os instrumentos que favorecem o bem-estar e a autonomia de pessoas atípicas, mas nunca deixamos de observar o contexto em que cada ferramenta é utilizada. O universo dos games, como qualquer ambiente, precisa ser vivido com presença, cuidado e escuta. O controle do jogo está nas mãos dos adultos, mas o impacto real se manifesta no corpo e na mente das crianças.
O desafio não é proibir, mas aprender a jogar com sabedoria.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação sobre uso de telas. 2022.
- Revista Crescer. “Telas e Autismo: quando a tecnologia deixa de ajudar”. Edição de agosto de 2023.
- Temple Grandin. Entrevistas públicas e livros autobiográficos.
- Tismoo.me. Plataforma brasileira de soluções para autistas.
- Grupos públicos no Facebook: “TEA com Amor”, “Mães Azuis”, “Vida Autista Brasil”.
- Depoimentos abertos no Twitter (X) com hashtags como #autismo, #gamerautista, #neurodivergente.
