
Mas o reconhecimento social da causa trouxe também um efeito colateral previsível: o surgimento de candidatos que tentam transformar a cannabis em ativo eleitoral, buscando engajamento, visibilidade e votos em uma pauta que ajudaram muito pouco — ou absolutamente nada — a construir.
A dor de milhares de famílias não é cabo eleitoral
Durante anos, associações de pacientes, mães e famílias atípicas, profissionais da saúde e ativistas construíram praticamente do zero uma rede de acolhimento e acesso que muitas vezes surgiu justamente onde o Estado não conseguia oferecer respostas.
Essa história não foi construída sem custo.
Houve famílias produzindo artesanalmente tratamentos para seus filhos, associações enfrentando burocracia e insegurança jurídica, pacientes recorrendo aos tribunais, cultivadores submetidos ao risco da criminalização e organizações inteiras obrigadas a lutar pelo reconhecimento de atividades destinadas à saúde.
Foi nesse ambiente — quando defender publicamente a cannabis ainda podia significar preconceito, investigação policial, processo criminal e desgaste político — que a causa brasileira se consolidou.
Agora que a cannabis medicinal alcançou ampla aceitação social, aparecem aqueles que descobriram uma súbita vocação para defendê-la justamente no momento em que essa defesa passou a render dividendos eleitorais.
O problema não é um político aderir à causa. Toda mudança social pressupõe conquistar novos aliados.
O problema é apresentar conveniência eleitoral como se fosse trajetória.
Quando a cannabis vira peça de marketing
O eleitoralismo canábico aparece na apropriação superficial de símbolos, na utilização marqueteira da estética da planta, em vídeos performáticos produzidos às vésperas da eleição e em promessas genéricas de “regulamentação” que dizem muito pouco sobre aquilo que realmente está em disputa.
Regular para quem?
Cultivar em quais condições?
Quem poderá produzir?
Qual será o espaço das associações de pacientes?
Como garantir segurança jurídica aos pequenos cultivos associativos?
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