A Guerra Contra o Cuidado

O Cerco às Associações Canábicas no Brasil

Associações civis que produzem extratos de cannabis para uso medicinal estão sendo alvo de uma escalada , de repressão institucional no Brasil. Em diferentes estados, operações policiais, prisões e ações penais vêm se repetindo com os mesmos métodos e argumentos. A repressão, antes velada, agora se apresenta como estratégia coordenada para criminalizar um modelo de cuidado popular e coletivo que desafia o monopólio farmacêutico.

Casos em série, repressão padronizada

Casos registrados em seis estados do país revelam um padrão de perseguição judicial e policial contra associações canábicas que atuam em contextos de saúde pública negligenciada. Mesmo com respaldo de laudos médicos, prescrição profissional e decisões judiciais, seus fundadores foram alvos de mandados de busca, prisões, apreensões e acusações de tráfico. Agora, o julgamento do habeas corpus da BrisaLuz, marcado para 31 de julho de 2025, pode se tornar um divisor de águas — ou um reforço ao cerco em curso.

1. Instituto Samuel Ladário (MG) – Repressão que virou luto

Criado por Cleuza e Ricardo, o Instituto Samuel Ladário atuava no cuidado do filho do casal, Samuel, jovem autista com epilepsia severa. Em setembro de 2023, a residência da família foi alvo de uma operação da Polícia Civil, com apreensão de 59 kg de plantas, prisão de Ricardo e retirada compulsória de Samuel pelo Conselho Tutelar.

Com o tratamento interrompido e sem alternativa terapêutica, Samuel entrou em colapso e faleceu meses depois. Até hoje, nenhuma autoridade foi responsabilizada.

2. Abrace Esperança (PB) – Autorizada, mas sob ataque

Desde 2017, a Abrace possui liminar judicial para cultivar e produzir extratos medicinais. Mesmo operando legalmente, enfrentou apreensões indevidas, intimações e tentativa do Ministério Público de afastar sua diretoria em 2025.

3. Apepi (RJ) – Habeas corpus ignorado

Autorizada desde 2020, a Apepi sofreu operação policial em 2022 que desconsiderou o habeas corpus vigente. Agentes armados invadiram a propriedade rural da associação em Teresópolis, alegando “excesso de produção”.

4. Divina Flor (MS/SP) – Prisão por tratar a filha

Jéssica, fundadora da Divina Flor, foi presa por cultivar cannabis para o tratamento da filha com epilepsia. Passou sete dias em presídio de segurança máxima. Após o habeas corpus, fundou a associação, que hoje atende mais de 3 mil pacientes sob liminar.

5. Maria Flor (SP) – Prisão e desmonte

Márcio e Fernanda foram presos e denunciados por tráfico. A associação teve suas atividades paralisadas. As justificativas — “tráfico disfarçado de associação”, “risco à saúde pública” — repetem-se nos autos de processos em vários estados.

6. BrisaLuz (PR/CE) – Prisão sem audiência e armas contra uma criança

Fundada por Emanuela e Jayme, a BrisaLuz atua desde 2020 com extratos artesanais para famílias atípicas. Em maio de 2023, foram alvo de operação policial com cães farejadores e agentes armados. Durante a ação, armas foram apontadas para o filho autista do casal.

Ambos foram presos por mais de 24 horas sem audiência de custódia e denunciados por tráfico. O habeas corpus (nº 103381-66.2024.8.16.0000) está em julgamento no TJPR. O relator, desembargador Ruy Henrique Alves, votou contra a concessão. Após o voto divergente favorável da desembargadora Simone Melo, o relator pediu vista. O julgamento foi remarcado para 31 de julho de 2025.

O padrão: repressão, não exceção

  • Operações com os mesmos métodos: mandados, apreensões, linguagem padronizada.
  • Alvo preferencial: famílias com pacientes vulneráveis (autismo, epilepsia).
  • Prisões, processos penais, estigmatização — mesmo com laudos e liminares.

Quadro comparativo

Associação Mandado Prisão Tratamento interrompido HC ou liminar Processo penal
Samuel Ladário Sim Sim Sim (óbito) Não Sim
Abrace Esperança Sim Não Não Sim Sim
Apepi Sim Não Parcial Sim Sim
Divina Flor Sim Sim Sim Sim Sim
Maria Flor Sim Sim Sim Sim Sim
BrisaLuz Sim Sim Sim Em julgamento Sim

Conclusão

O Brasil vive uma repressão informal e sistemática contra o cuidado com cannabis medicinal em contexto comunitário. O julgamento da BrisaLuz em 31 de julho será mais do que um veredito individual: será o momento em que o país decidirá se irá criminalizar quem cuida — ou quem reprime o cuidado.

📅 O cuidado está em julgamento. O país inteiro deveria estar assistindo.

Fontes e Referências

  • Abrace: TRF5, BBC Brasil
  • Apepi: TJ-RJ, Cannabis & Saúde
  • Divina Flor: Sechat, TJ-MS
  • Maria Flor: Depoimentos públicos e coletivos
  • Samuel Ladário: Cannabis Medicinal, redes sociais
  • BrisaLuz: Processo penal, HC 103381-66, TJPR – voto favorável de Simone Melo, voto contrário e pedido de vista de Ruy Henrique Alves
  • Contexto legal: Lei 11.343/2006, ADPF 187, RE 635.659, artigos científicos

Um comentário em “A Guerra Contra o Cuidado

  1. olair rafel da silva jr Responder

    Até quando vms IMPORTAR produtos q poderíamos produzir e gerar emprego e renda para nós brasileiro$$?
    BASTA DE REPRESSÃO –> APOIAR ANTES DE PRECISAR ,,, todo uso é TERAPÊUTICO”

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